| Thar Desert, Rajasthan |
Menstruação, um processo natural do corpo humano e que ainda é um assunto tabu em algumas partes do mundo. O curta-metragem "Absorvendo o Tabu", por exemplo, apresentou a realidade de vilarejos, o comportamento dos indianos referente ao tema e ainda destacou a questão econômica. Um assunto simples e sem muitas preliminares na maior parte do mundo, tal qual aqui na Índia é um verdadeiro dilema e eu gostaria de contar um pouquinho da minha experiência, uma adolescente brasileira que decidiu viver na Índia por um ano.
A vergonha, há um sentimento de insegurança de falar sobre o assunto pelo medo do ridículo e julgamento dos outros. Nos primeiros meses no país, na minha primeira família, só fui entender que minha mãe anfitriã estava me dando sacolas plásticas pretas para descartar o lixo do banheiro, mas por causa da menstruação, quando ela foi me ensinar a forma discreta de ir jogar o lixo fora. Ou em um dia de club, eu não participar do esporte por estar com cólica e menstruada e quando questionada por um menino, ser interrompida pela minha outra mãe anfitriã, com ela dizendo que eu estava apenas cansada. Quando questionei porque eu não poderia dizer o real motivo, a justificativa me dada foi que seria um constrangimento para mim, para ela e para o menino que iria ouvir, "mas é só menstruação, é um processo natural", "você está na Índia agora e não falamos com naturalidade isso".
Nesse sentido, ir comprar um pacote de absorvente na lojinha da esquina se torna cômico quando você tem falar quase sussurrando o que você quer e quando o vendedor enrola o pacote em várias folhas de jornais além de te fornecer uma sacola escura "porquê Deus me livre se algum homem ver, seria tão embaraçoso".
Nesse sentido, ir comprar um pacote de absorvente na lojinha da esquina se torna cômico quando você tem falar quase sussurrando o que você quer e quando o vendedor enrola o pacote em várias folhas de jornais além de te fornecer uma sacola escura "porquê Deus me livre se algum homem ver, seria tão embaraçoso".
Seguir restrições de fala nunca foram o meu forte, então continuei falando abertamente sobre o assunto e fico feliz que consegui levar informações para algumas garotas, principalmente na escola, levando em consideração que elas tivessem feito as perguntas por escrito, por vergonha de dizer em voz alta.
A falta de informação é sempre o pior dos problemas na maioria dos tabus. Apesar de eu ter observado na escola os professores falando de forma científica sobre reprodução feminina, ainda senti carência na parte prática de como as meninas precisam lidar com isso nos dias atuais, assim como os meninos precisam parar de achar que é uma doença, um karma ou qualquer outra coisa.
Nunca vou me esquecer de que no meu primeiro mês na Índia participei de uma palestra "Be Strong, Be Smart" que tinha o objetivo de levar informação sobre empoderamento feminino para as garotas de uma parte mais humilde aqui da cidade. Nesta palestra, falaram sobre a importância dos estudos, a importância da mulher no mercado de trabalho, sobre estupro (explicando claramente que as roupas, horário ou local, por exemplo, não justificam os atos do estuprador), além de instruir como deveriam agir. Sobre higiene, destacando a importância das meninas conhecerem seus próprios corpos, incluindo comentários sobre os tipos de absorventes que existem hoje.
As palestrantes estavam falando com naturalidade, o que foi de extrema importância, justo que algumas meninas se sentiram a vontade para fazer perguntas, o que me fez perceber em algumas a real carência de comunicação. Era uma ONG particular fazendo a palestra, mas recentemente descobri que neste plano de governo atual, o primeiro ministro tem promovido palestras em regiões necessitadas e distribuído absorventes gratuitamente para mulheres carentes.
As palestrantes estavam falando com naturalidade, o que foi de extrema importância, justo que algumas meninas se sentiram a vontade para fazer perguntas, o que me fez perceber em algumas a real carência de comunicação. Era uma ONG particular fazendo a palestra, mas recentemente descobri que neste plano de governo atual, o primeiro ministro tem promovido palestras em regiões necessitadas e distribuído absorventes gratuitamente para mulheres carentes.
Preços, o absorvente que tenho utilizado aqui na Índia custa em torno de 40 rúpias, que é em torno de 2 reais. Enquanto no Brasil estamos entrando na onda de coletores menstruais, calcinhas preparadas para o período e ademais ideias, por aqui estima-se que apenas 10% das mulheres tem acesso ao absorvente descartável, seja pela informação ou pelo dinheiro. O que como foi demonstrado no documentário citado no início "Absorvendo Tabu", a falta de acesso faz com que mulheres indianas deixem de estudar, trabalhar, sair de casa e ter a saúde prejudicada.
Cada lugar tem suas particularidades e assim, cada família tem a sua forma diferente de lidar com o assunto. Na minha atual família anfitriã (que é a terceira família ao qual convivo) nos 3 primeiros dias do período menstrual não posso entrar na cozinha, cozinhar ou ir a templos e esse comportamento, se aplica a todas as mulheres da casa, pois estamos sujas para realizar tais atos. A justificativa para isso, é a tradição familiar que a tempos é seguida e assim deve continuar sendo.
A um tempo atrás estava rolando um desafio onde celebridades indianas estavam postando fotos com absorventes nas mãos, para demonstrar que é apenas um absorvente, que período menstrual é algo natural "#PadManChallenge". Mas mesmo com toda a movimentação da campanha, é surpreendente por exemplo quando a família anfitriã achar estranho e questionar quando muitas espinhas apareceram de repente no meu rosto ou até mesmo uma parte do mês que eu estava emotiva e comendo chocolate compulsivamente.
A Índia está mudando, lentamente, mas esta mudando. Curtas como o Absorvendo Tabu são importantes porque a repercussão mundial faz com que influencie em ações rápidas aqui, uma máquina simples para fazer absorventes possibilitou a independência financeira e social daquelas mulheres, esse curta de 26 minutos tem a possibilidade de abrir os olhos de toda a população.
- Mariane Silverio.
Texto a partir das experiências vividas em Bharuch, Gujarati, India, entre o ano de 2018-19.
- Mariane Silverio.
Texto a partir das experiências vividas em Bharuch, Gujarati, India, entre o ano de 2018-19.
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